Enquanto Iranduba sufoca, os que gritaram contra o parque de soluções ambientais se calam

Silêncio total, desaparecimento, esquecimento e sumiço. Assim estão o prefeito de Iranduba, Augusto Ferraz, e seu grupo de empresários e apoiadores que desde 2020 são a favor do lixão do município – que hoje arde em chamas – e lutam, de forma violenta e agressiva contra o projeto da iniciativa privada, que previa a instalação do primeiro Parque de Soluções Ambientais da Região Norte totalmente de acordo com a legislação ambiental e sem nenhum custo aos cofres públicos.

Utilizando argumentos como a defesa ambiental, a fauna, a flora, da sustentabilidade e que o parque iria “acabar com o meio ambiente de Iranduba, de Manaus e do Amazonas”, o grupo político apoiado por Ferraz e financiado por grandes imobiliárias, realizou uma série de manifestações em Iranduba e em Manaus, discursou em praças públicas, viajou para a COP-30 em Belém e agrediu, em diversas ocasiões, os moradores que hoje sofrem com a queima do lixão irregular no Km 6.

Vale lembrar, que em março de 2022, em audiência pública realizada pelo Ipaam para debater e apresentar o projeto do Parque de Soluções Ambientais e o fim do lixão – hoje batizado pelos irandubenses como ‘Lixão do Ferraz’ em homenagem ao prefeito – o grupo agrediu fisicamente os moradores que eram a favor do parque e que hoje respiram a fumaça tóxica do lixo produzido no município.

Também vale lembrar que em novembro passado, quando o prefeito Augusto Ferraz anunciou que iria rejeitar o projeto do parque de soluções ambientais e manter o lixão que agora arde em chamas, foi aclamado com aplausos e os votos necessários para sua reeleição.

“Essa gente simplesmente sumiu. Desapareceu porque eles não sabem a realidade de Iranduba. Esse tempo todo estamos alertando para os problemas do lixão, que a solução era o parque, e eles nos agridem e nos ameaçam, inclusive nas ruas da cidade. Agora que estamos com crianças e idosos passando mal, pessoas sem conseguir respirar, nenhum apareceu aqui para oferecer uma ajuda ou um copo de água”, afirmou uma moradora da comunidade Do Janauary que pediu para não ser identificada por temer mais represálias dos apoiadores do prefeito.

Rostos Conhecidos
O movimento que se notabilizou por barrar o Parque de Soluções Ambientais da Norte Ambiental tem nome e rostos conhecidos em Iranduba como Padre Miguel, Aniceto Barroso e sua esposa (que no primeiro semestre deste ano agrediu em frente à Câmara Municipal de Vereadores uma manifestante que é favorável ao fim do lixão.

O grupo teve também a adesão de políticos como o vereador de Manaus José Ricardo, que em diversas ocasiões participou e discursou em atos públicos contra a instalação do parque.

Todos, inclusive o parlamentar, não postaram até o momento, sequer uma nota de solidariedade às centenas de famílias vítimas do descaso ambiental, social e econômico da gestão de Augusto Ferraz ou até mesmo alguma preocupação com a segurança dos aviões, um de seus argumentos mais frequentes para barrar o parque de soluções ambientais.

Iranduba respira veneno e enquanto os apoiadores do prefeito se escondem e fingem não saber o que está acontecendo no município que dizem amar, o fogo no ‘Lixão do Ferraz’ completa seis dias, fumaça e mais de R$ 4,5 milhões em multas ambientais, aulas suspensas por decreto, os catadores abandonados à própria sorte dentro do fogo e centenas de pessoas com sérios problemas de saúde, além de graves danos à fauna e flora da região.

“Eles nunca se preocuparam com o destino do lixo que produzem porque é tudo jogado aqui, longe da casa deles, mas perto da nossa. Inclusive queremos saber onde estão os órgãos de fiscalização como o Ministério Público, o Tribunal de Justiça, o Tribunal de Contas, a Secretaria Estadual de Meio ambiente nestas horas. Todos sumiram e estamos abandonados à própria sorte, denunciou a moradora Maria do Carmo Rodrigues.

Uma questão que virou crime
O lixão de Iranduba não é irregular desde ontem. O Ipaam monitora a área há pelo menos três anos, notificou a Prefeitura em 2023 para adequação, aplicou multa de R$ 500 mil em 2024 por descumprimento, e agora soma mais de R$ 4,5 milhões em autuações. Este é o segundo incêndio de grandes proporções em 2026 e o terceiro desde 2025. O anterior durou 22 dias.

Ou seja, é reincidência, quando existe solução técnica aprovada, testada e disponível sobre a mesa, mas recusada por decisão política. Segundo lideres comunitários de áreas próximas ao lixão, isso deixa de ser apenas incompetência administrativa para ser, na avaliação de quem acompanha o caso, uma escolha com consequências que configuram, no mínimo, crime ambiental e, para juristas consultados sobre outros episódios da gestão Ferraz, possível improbidade administrativa.

Enquanto isso, bombeiros combatem o fogo com água que só atinge a superfície, sem conseguir alcançar os focos subterrâneos por falta de maquinário pesado disponibilizado a tempo pela própria Prefeitura. Moradores do Janauari foram às ruas protestar em frente ao lixão. E, segundo denúncias de quem vive e trabalha na área, o descarte de resíduos no local não parou nem durante as chamas — a mesma administração que não consegue apagar o incêndio segue alimentando a origem dele.

“Iranduba não precisava estar aqui. Havia projeto, havia licença, havia parecer técnico favorável. O que faltou foi coragem política de um lado — e falta, hoje, a coragem de quem ajudou a derrubar essa saída para admitir, em público, que talvez fosse hora de rever a posição diante do que está posto: crianças sem aula, trabalhadores abandonados dentro do fogo e uma população inteira respirando veneno, porque a alternativa exemplar foi trocada pelo discurso de ontem e pelo silêncio de hoje”, lamentou o líder comunitário Paulo Roberto.

O projeto que existia, e foi engavetado
Desde pelo menos 2021, a empresa Norte Ambiental vem tentando instalar em Iranduba o que seria o primeiro Parque de Soluções Ambientais moderno do Amazonas: o Serviço de Tratamento e Destinação de Resíduos (STDR Iranduba), mais conhecido como “Parque de Soluções Ambientais”.

No papel, e nos pareceres técnicos que recebeu de órgãos estaduais e federais, o projeto previa triagem mecanizada de recicláveis, produção de adubo a partir de resíduos orgânicos, impermeabilização de solo, tratamento de chorume e monitoramento ambiental 24 horas — tudo dentro da Política Nacional de Resíduos Sólidos, e pensado para ser referência nacional em meio ambiente.

Pois esse projeto foi rejeitado pelo prefeito de Iranduba, Augusto Ferraz, em novembro de 2025 — mesmo depois de aprovado por órgãos técnicos estaduais e federais – sob a alegação de “autonomia municipal”.

Lideranças comunitárias, à época, foram diretas: “na primeira vez ele disse que era a favor; agora já é contra. Um homem de duas palavras não é homem suficiente”, resumiu um morador em entrevista a um veículo local. Passados poucos meses, o mesmo prefeito que recusou o parque é quem hoje preside — ou melhor, não consegue conter — uma tragédia que a solução recusada foi desenhada justamente para evitar. Hoje, quem paga por essa decisão são as crianças fora da sala de aula, os catadores sem água nem salário e uma população inteira que está respirando fumaça tóxica.

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