ARTIGO: IDOSOS DO BRASIL UNI-VOS: O SENADO NOS FOI USURPADO!

Nunca tive oportunidade de me encontrar com o arquiteto Oscar Niemeyer para lhe perguntar o que o levou a dar esta forma ao prédio do Congresso Nacional? Mas arrisco-me a imaginar que foi o seguinte: A Câmara: jovens de braços abertos para horizontes infinitos, em todas as suas direções, convidados a realizarem suas vidas no engrandecimento da humanidade, com criatividade sem limites. E o Senado velhos corcundas, cheios de memória, rumo a um grão de areia, a uma molécula, deslizando ao espírito invisível, infinito. A surpresa, prestes a ser-lhes revelada.

Mas o prédio que está aí é hoje abrigo da insanidade humana. Caminha contra os objetivos para os quais foi criado. Enquadrou o futuro do país numa insanidade e mesquinhez insanáveis. Dia após dia, semana após semana, mês a mês e ano após ano, isto se torna mais visível.

Veja aí o que acontece neste Congresso. Um traficante de armas para os garimpeiros da terra Yanomami, afirma-se estuprador, sobe a tribuna e exalta torturador de mulheres, se associa a uma quadrilha do ódio. E, com a força dos donos da mídia dominante insana, é eleito Presidente da República e com ambição de dinastia. Assim estamos diante de um Congresso solenemente engravatado, encalhado sobre frias estruturas de cimento, preocupado apenas em legislar o enriquecimento de seus membros, aliado aos ricos, aos fortes, aos poderosos…

Enquanto isto todos sabemos que um povo, um país só se engrandece quando seus dirigentes se aliam aos fracos e buscam se encarnar no menor, no mínimo.

Aqui na Casa da Cultura do Urubuí-CACUI, num recanto da Amazônia, vivo rodeado de jovens e fico ouvindo suas preocupações, suas análises da realidade e esperançando utopias. Cada pessoa humana, cada jovem, abriga uma criatividade infinita. E quando esta criatividade se deixa iluminar pelas pessoas e pela Mãe-Terra oprimidas, nasce a Utopia que supera a insanidade humana e traz esperança a uma humanidade feliz.

E, restringindo-me no que envolve a minha idade: o Senado. Senado vem de senex=velho/a, donde “senatus”=Conselho de Velhos”. É óbvio que os seus fundadores sentiram a necessidade que todos os povos sentiram e sentem: o “conselho dos velhos”. Todo o velho guarda uma experiência de vida: positiva ou negativa. Com aposentadoria, acrescida pela solidariedade que vem dos/a filhos/a e amigas/os, para que salario, emenda parlamentar, penduricalhos, auxílios especiais: paletó, panetone? Contenta-se com uma cadeira ou poltrona confortável, uma rede. Não aspira o luxo monumental de Brasília. Para exercer o seu mandato de ‘senador’ em seus derradeiros dias, contenta-se até com uma casinha de madeira confortável, em meio às necessidades de um povo de sangue e osso. Pra quê um luxuoso apartamento em Brasília?

Tendo vivido a sua existência em solidariedade com a gente mais humilde da sua proximidade; ou peregrinado país afora, articulando justiça ou mesmo tendo cometido injustiças. Importante ouvir até velho articulador político de uma ditadura cruel, Ouvir uma enfermeira que dedicou a vida à solidariedade num hospital. Um marceneiro que com carinho construiu e consertou casas. Ouvir uma cozinheira que a exemplo daquela que preparou a ceia para os peregrinos de Emaús, ou a Última Ceia, onde emprestou seu avental para o Lava-pés: demonstração dum programa de vida. Isto sim, merece um ‘Senado’, ou seja, ser participado para que as novas gerações possam se decidir com liberdade na realização de sua vida, rumo ao Bem-viver pessoal e da humanidade.

Durante suas longas vidas, tendo acompanhado a seu modo a política nacional e mundial, o/a velho/a acumulou criticas, sugestões, propostas e está em condições de fornecer aos cidadãos de todas as idades uma mensagem de sabedoria maior. Por exemplo:

  • como escolher nossos dirigentes: pelo poder da gravata, da tiara romana, do dinheiro, ou por assembleias populares?
  • como organizar um sistema escolar, currículos que ensinem e treinem as pessoas a cultivarem a ternura, a solidariedade e a compaixão?
  • como transformar um serviço ‘militar’ em oportunidade e treinamento dos jovens para crescerem em criatividade, abrindo horizontes de fraternidade? Onde se sintam convocados para experiências que engrandeçam a vida, buscando a luz que vem dos oprimidos. Fazerem a experiência da encarnação na realidade do povo pobre e injustiçado, onde se sentam livres para escolherem com criatividade o rumo de sua vida.

Enfim, Senado é para isto: orientar o futuro melhor dos povos que habitam este Planeta no presente e no futuro. Apontar os equívocos pelos quais a humanidade enveredou ao longo dos séculos. Denunciar a equivocada democracia construída sobre dinheiro, mentiras, privilégios. Questionar a sociedade construída sobre a concorrência entre frias empresas que não enxergam, não sentem e não choram frente às necessidades e o sofrimento do povo. E não sabem se alegrar e nem sorrir com o Bem-viver do povo.

Esta julgo ser a mensagem mais importante que o Senado deve à sociedade. Ninguém sabe o que nos espera do outro lado, onde em breve estaremos. Mas uma coisa sabemos com toda a certeza: um montão de dinheiro, um latifúndio privado e penduricalhos, nada disso levaremos. De um estágio de peregrinação em 1959, como peregrino jesuíta, em estrada de São Francisco de Paula/RS, guardo a sabedoria que um motorista escreveu no para-choque de seu caminhão: “Pra que orgulho se a morte é certa?”

Nestas condições, aos 90 anos de idade sou um pré-candidato ao Senado! IDOSOS DO BRASÍL: UNI-VOS O SENADO É NOSSO!

Não se deixar limitar pelo máximo, mas caber no mínimo. Aqui Deus está!

Egydio Schwade
Filósofo, teólogo e ativista indigenista

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